Sínodo do cadáver: O papa desenterrado e julgado

Entre o século IX e X a igreja católica passou por momentos de turbulência. Ligados ao sistema político da Europa, o vaticano vivia uma instabilidade de sucessivas mudanças de papa. A turbulência chegou ao máximo do absurdo, quando um papa foi desenterrado e julgado 9 meses após a sua morte, em um evento que ficou conhecido como sínodo do cadáver, ou o julgamento de um cadáver.

Você já deve ter lido por aí algumas histórias bizarras sobre pessoas que fizeram coisas absurdas. Mas essa com certeza é bem diferente das demais. Ainda mais que os protagonistas desse evento são os líderes da igreja católica. O papa Estevão VI mandou exumar o corpo de seu antecessor, o papa Formoso e, esse teria que ser levado a um tribunal. Entenda a gora como se deu essa história bizarra.

 

Quem foi o papa Formoso

 

Sínodo do cadáver

Formoso nasceu por volta do ano 816 d.C. Devido as condições deploráveis daquela época, pouco se sabe sobre sua vida antes dele se tornar cardeal em 864. Durante a década seguinte ele trabalhou como missionário na Bulgária e na França. Em 872 ele concorreu ao papado, mas não obteve sucesso, sendo então chamado pelos búlgaros para ser o arcebispo desse país, mas o papa Nicolau I não autorizou.

Mais tarde, com o papa João VIII à frente da igreja e com medo de perder o papado, decidiu então acusar Formoso de corromper os búlgaros e conspirar contra a santa Sé. Os búlgaros não queriam outro papa, exceto Formoso. No ano de 876, Formoso foi excomungado da igreja.

No ano de 882 o papa João VIII foi morto e, segundo dizem, ele foi envenenado e após isso o assassino ainda lhe deu marteladas na cabeça. Com a morte do papa, Formoso foi então perdoado de suas acusações. Após o assassinato do papa, outros o sucederam em um curto espaço de tempo: papa Marino I, Adriano III e o papa Estêvão V.

Em 891 Formoso foi eleito papa, ocupando a cadeira papal até 896, ano em que ele faleceu de paralisia (que também poderia ser um envenenamento). Enquanto no poder, papa Formoso fez muitos inimigos do alto poder de Constantinopla, no império romano e até mesmo dentro da própria igreja católica.

Se por um lado o papa Formoso era odiado pelos líderes daquela época, por outro era amado pelo povo. Quando Formoso morreu, houve tumultos pelas ruas de Roma e, rapidamente a igreja tratou de nomear um novo papa em seu lugar. Bonifácio VI sucedeu o papa Formoso, mas por apenas duas semanas, pois ele também faleceu, ou teria sido outro envenenamento? Após a morte de mais um papa, outro teria que assumir o trono papal e, dessa vez Estevão VI seria o líder da igreja católica.

 

O julgamento do cadáver

papa julgado morto

Nenhum registro oficial existe, no entanto, é sabido que o papa Formoso foi desenterrado e vestido em roupas limpas, sentado em uma cadeira e nela amarrado diante de um tribunal arquitetado pelo então papa Estevão VI. As acusações que caiam contra o defunto eram as mesmas feitas anteriormente pelo papa João VIII, todas baseadas em vontades política daquele momento.

Estevão VI presidiu pessoalmente o julgamento do papa morto. Há quem diga que Estevão VI pode ter sido pressionado a humilhar o cadáver de Formoso, pois pessoas importantes odiavam o papa Formoso, mesmo depois de morto.

Durante o tribunal, Formoso foi representado por um diácono que se agachou por trás da cadeira em que estava o papa em decomposição, ele tinha a função de responder as perguntas feitas ao cadáver. E quando perguntas claramente feitas foram dirigidas ao cadáver do papa Formoso, como: porque você usurpou o papado? Seu representante por trás respondia: “porque eu era mal”.

Formoso foi considerado culpado das acusações feitas a ele e condenado. Ele teve suas vestes de papa rasgadas, arrancaram seus três dedos, com os quais havia em vida abençoado as pessoas e, ao final foi enterrado em um túmulo de um plebeu.

 

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O julgamento do papa Estevão VI

A ambição pelo trono papal levou a muitas intrigas, ódio e até mortes para se chegar ao comando de uma igreja. Durante esse período havia um contraste, entre o que deveria ser de fato o comportamento de um cristão e a forma como os líderes da igreja agiam. Razão essa que levou a sucessivas mudanças de papas em um período de tempo muito curto.

O julgamento de um papa morto foi a gota d’água para a sociedade da época, que já cansados de tantas intrigas dentro da igreja exigiram que Estevão VI fosse removido do cargo de papa. O papa que julgou um cadáver foi preso e estrangulado em agosto de 897.

 

O sínodo cadáver foi finalmente anulado em dezembro de 897 pelo papa Teodoro II. Mais tarde, o papa João IX também anulou o sínodo, ordenou que os registros desse evento vergonhoso fossem destruídos e proibiu qualquer julgamento futuro de uma pessoa morta.

Isto pôs oficialmente um fim ao julgamento. No entanto, não foi a última vez que Formoso foi colocado em julgamento. Apesar do decreto de João IX, o papa Sérgio III, bispo, co-juiz do Sínodo e aliado de Estevão VI, reafirmou a convicção de Formoso.

Em 904, Formoso foi exumado, revogado e novamente considerado culpado. Desta vez, de acordo com os relatos, o cadáver de Formoso foi decapitado e jogado no rio Tibre, pondo fim de uma vez por todas no caso do papa Formoso.

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